SOMOS TECELÃS DE MUITAS FACES E CULTURAS, TECENDO HISTÓRIAS ATRAVÉS DOS TEMPOS.

Tecendo a vida

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quinta-feira, 5 de março de 2015

A INFINITA FIANDEIRA


A aranha, aquela aranha, era tão única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.
E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem nem finalidade. Todo bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatias funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções.
Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a indevida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.
- Não faço teias por instinto.
- Então, faz porquê?
- Faço por arte.
Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. os pais, após concertação, a mandaram chamar. A mãe:
- Minha filha, quando é que acentas as patas na parede?
E o pai:
- Já eu me vejo em palpos de mim...
Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:
- Estamos recebendo queixas do aranhal.
- O que é que dizem, mãe?
- Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.
Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro.
- Vai ver que custa menos que engolir mosca - disse a mãe.
E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fabricava a brisa?
A aranhiça levou o namorado a visitar sua coleção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova de seu amor.
A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime. Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Qaundo ela, já transfigurada., se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?
- Faço arte.
- Arte?
E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos - chamados de obras de arte - tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.
(  A INFINITA FIANDEIRA in Mia Couto - O Fio das Missangas)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

domingo, 7 de abril de 2013

A Fonte das Mulheres



 Iniciando as postagens de 2013 em grande estilo:

  A Fonte das Mulheres.

 FICHA TÉCNICA Diretor: Radu Mihaileanu Elenco: Leïla Bekhti, Hafsia Herzi, Sabrina Ouazani, Saleh Bakri, Hiam Abbass, Mohamed Majd, Amal Atrach, Malek Akhmiss, Karim Leklou, Zinedine Soualem, Saad Tsouli Produção: Luc Besson, Denis Carot, Gaetan David Roteiro: Alain-Michel Blanc, Radu Mihaileanu Fotografia: Glynn Speeckaert Trilha Sonora: Armand Amar Duração: 135 min. Ano: 2011 País: Bélgica/ Itália/ França Gênero: Comédia Dramática Cor: Colorido Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Europa Corp. / Elzévir Films / Indigo Film Classificação: 14 anos

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Magnífica parceria entre Salvador Dali e os Estúdios Disney.

Leia a história desta parceria e desta belíssima animação em: Semióticas: Alice volta ao futuro

Semióticas: Alice volta ao futuro: “ Preciso dizer que, quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então”   ...


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Pandora Outra


Deuses e Titãs brigam por podres poderes... Uma mulher e uma caixa _ ou uma maçã, ou o fruto do tucumã _ trariam o castigo divino.  Depois de tantos avisos e ameaças míticas, abre-se a caixa de Pandora e... Oh surpresa! No lugar de desgraças, saem borboletas !

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Somos todas Malala Yousufzai




Malala Yousufzai, a garota paquistanesa de 14 anos de idade que fez campanhas pelos direitos das meninas à educação, foi baleada na cabeça em seu caminho de volta para casa depois da escola. O atentado ocorreu no dia 9 de outubro e foi assumido pelo Taliban.






quinta-feira, 21 de junho de 2012

Desenvolvimento sustentável

De: Aboriginal and Tribal Nation News

Desenvolvimento sustentável é, também, honrar o fio que une as gerações.


domingo, 13 de maio de 2012

13 de maio: um dia de muitas datas.


BLACK POWER - laboratorio Anastácia from Bastïen Viltart on Vimeo.

 "Neste dia 13 de maio, lançamos o Video "Cabelo Expressão de meu Poder", para reforçar a Luta Nacional de Denuncia Contra o Racismo, marcando a grande diferença que existe historicamente de "comemoração" à libertação da escravatura. Homenagem os ancestrais que lutaram pela liberdade de todos O video foi criado pela elenco do Espectáculo de Teatro Forum: Cor do Brasil e multiplicadores do Teatro do Oprimido . uma parceria de Centro de Teatro do Oprimido e Kuringa Berlin" BLACK POWER - laboratorio Anastácia by Bastïen Viltart

terça-feira, 1 de maio de 2012

Tecendo o 1 de maio

Em pé, Maria Aparecida, Maria Conceição e Nilza; sentadas, Cida, Maria José Goes, Maria José Cardoso e Maria Isabel: estrelas do teatro | Foto: Fernando Souza / Agência O Dia
Neste 1 de maio, minha admiração por todos os trabalhadores e trabalhadoras será representada pelo Grupo de Teatro do Oprimido Marias do Brasil, valorosas mulheres, trabalhadoras domésticas, que há 15 anos utilizam a linguagem teatral para discutir as questões de sua profissão.

Leia aqui a reportagem de O Dia sobre essas mulheres maravilhosas, tecelãs de uma ação política revolucionária: o teatro.

sábado, 31 de março de 2012

A canção possível no dia de hoje.



31 de março. Golpe de estado não é revolução. Ditadura não se comemora.
Pelas Zuzus, Iaras e tantas outras mulheres... e pelos homens.
Pela abertura dos arquivos. Que a tortura finalmente tenha um fim.

domingo, 15 de janeiro de 2012

São Macunaíma e eu.

Ai que preguiiiiiiiiiça !Desde o chuvoso início de janeiro, mês em que celebro minhas quase férias, estou rendendo homenagens para São Macunaíma. 
Talvez pelos processos de troca de ambiente de trabalho e de seleção para o doutorado, que ocorreram ano passado, e que foram muito intensos _ como qualquer novo que adentra em nossas vidas _ entrei janeiro de 2012  p-r-e-c-i-s-a-n-d-o de uma pausa. Doce ilusão ! Já tenho 2 livros para ler, uma reunião para participar nesta semana que se inicia.
Bem, eu desejei, escolhi e consegui isto. Só me resta, nos intervalos das tarefas, prestar homenagem para São Macunaíma e dizer alto e bom som "Ai, que preguiiiiiiiiça!"

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

As águas e as letras

Cândido Portinari, LAVADEIRAS, 1943.
Minha Avó era lavadeira; mulher pobre, com 7 filhos e um marido que pegou a estrada... Minha Avó não tinha as letras; desejava-as, sonhava-as, mirava a vivência escolar que nunca tivera. Um dia minha Avó entrou para a escola. Era o projeto MOBRAL-Movimento Brasileiro de Alfabetização. Embora fosse um retrocesso em terras que trabalharam com Paulo Freire e produto da ditadura militar, ainda assim era a vivência escolar tão desejada... Minha Avó era feliz.

Eu, no mesmo ano _1974_ ingressava no Curso Normal. Iria realizar a autocumprida profecia familiar de me tornar professora. Minha Avó se alfabetizava e eu estudava para, mais tarde, alfabetizar... Minha Avó era feliz, eu era feliz.

Todavia, como Mulheres, as letras não nos eram entregues com facilidade.
Mulheres engravidam... A mais estranha das Tias engravidou e precisou trabalhar para sustentar a filha e as demais Mulheres da família decidiram que tudo estava decidido: minha Avó tomaria conta da criança e largaria a tão desejada escola. Os olhos da Avó se transformaram em mar e seu silêncio foi o mais eloquente dos discursos. Silenciado o desejo das letras e dos bancos escolares a Avó continuou cantando e lavando roupas. Ela e eu recebemos a mensagem familiar: estudo é secundário,  escola- só para quem não precisa fazer nada mais sério.
Meu último encontro com minha Avó foi no dia da minha formatura em História, três dias depois ela se tornaria Encantada, deixando em mim a lembrança de uma Grande Mãe e o desejo da Palavra.

Para as Mulheres as letras não são entregues com facilidade. Todavia...
Esta semana fui aprovada para um programa de Doutorado. Celebro a vitória no processo de seleção. Celebro minha Avó pois, no momento em que vi seus olhos se transformando em Mar, assumi o compromisso comigo mesma de nunca abrir mão das Palavras e das Letras.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Desce novamente às redes da vida do teu Povo Negro, Negra Aparecida!




Louvação a Mariama
(Milton Nascimento / pedro Casaldáliga / pedro Tierra)

- Mariama,
Iya, Iya, ô,
Mão do Bom Senhor!

Maria Mulata,
Maria daquela
colônia favela
que foi Nazaré.

Morena formosa,
Mater dolorosa,
Sinhá vitoriosa,
Rosário dos pretos mistérios da Fé.

Mãe do Santo, Santa,
Comadre de tantas,
liberta mulhé.

Pobre do Presépio, Forte do Calvário,
Saravá da Páscoa de Ressurreição,
Roseira e corrente do nosso Rosário,
Fiel Companheira da Libertação.

Por teu Ventre Livre, que é o verdadeiro,
pois nos gera livres no Libertador,
acalanta o Povo que está em cativeiro,
Mucama Senhora e Mãe do Senhor.

Canta sobre o Morro tua Profecia,
que derruba os ricos e os grandes, Maria.

Ergue os submetidos, marca os renegados,
samba na alegria dos pés congregados.

Encoraja os gritos, acende os olhares,
ajunta os escravos em novos Palmares.

Desce novamente às redes da vida
do teu Povo Negro, Negra Aparecida!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

domingo, 14 de novembro de 2010

Joana Imaginária

Boneca da artista Isabel Mendes da Cunha (1924-   ),
Vale do Jequitinhonha.
Disponível em www.ceramicanorio.com


Nos livros de História, a saga de Antônio Conselheiro, nosso beato que profetizou que o sertão viraria mar é narrada do ponto de vista masculino : as guerras com os soldados da República, a valentia dos jagunços do Arraial de Belo Monte... Ministrando uma aula de História para o ensino fundamental, li no livro didático o nome da segunda mulher do Conselheiro - Joana Imaginária.

Minha imaginação voou ao tentar imaginar Joana, a mulher de nome poético. Quem seria a portadora de  tal nome que dá base à poesia e à profecia ? O que imaginou Joana ? Que imagens produziu ?

Joana era santeira, modelava figuras sagradas do barro; seu ofício a ligava mais à Mãe Terra que ao Deus Pai. Do corpo da Mãe, Joana tirava material para as imagens ditadas pelas regras dos representantes do Pai.
Imaginária Joana... Mater Joana cujo trabalho com a matéria, amassando e modelando, como quem faz o pão, produzia assentamentos católicos para o axé do espírito. Considerada a conselheira da região, Joana tem um filho com Antônio, _ aquele que passou á História como o Conselheiro. No momento em que o Conselheiro parte em busca da sua utopia, Joana Imaginária não o segue; permanece com o filho. Essa decisão, concreta como o barro com o qual Joana imagina e modela as imagens sagradas, cotidiana como a terra, acaba por permitir a vida sua e de seu filho.
Joana Imaginária, a que não foi mártir. Joana Imaginária, a que foi artista.

Aqui, alguns links para imaginar Joana.
 



Cordel Do Fogo Encantado - Profecia (ou Testamento Da Ira)
Salve o povo Xucuru 

Na cumeeira da serra Ororubá o velho profeta já dizia 
Uma nova era se abre com duas vibras trançadas 
Seca e sangue 
Seca e sangue

Herdeiros do novo milênio 
Ninguém tem mais dúvidas 
O sertão via virar mar 
E o mar sim 
Depois de encharcar as mais estreitas veredas 
Virará sertão 

Antôe tinha razão rebanho da fé 

A terra de todos a terra é de ninguém 
Pisarão na terra dele todos os seus 
E os documentos dos homens incrédulos 
Não resistirão a Sua ira 

Filhos do caldeirão 
Herdeiros do fim do mundo 
Queimai vossa história tão mal contada 

Ah! Joana Imaginária 
Permita que o Conselheiro 
Encoste sua cabeleira 
No teu colo de oratórios 
Tua saia de rosários 
Teu beijo de cera quente 
 
 E assim na derradeira lua branca 
Quando todos os rios virarem leite 
E as barrancas cuscuz de milho 
E as estrelas tocadeiras de viola 
Caírem uma por uma 
Os soldados do rei D. Sebastião 
Mostrarão o caminho
 

sábado, 13 de novembro de 2010

Que máximo !

Miss Gertrude Powys as The Angel in the pantomime Sleeping Beauty at the Theatre Royal, 1886 / photographer J. T. Gorus, Sydneyphoto © 1886 State Library of New South Wales | more info (via: Wylio)

Atriz com figurino em peça de 1886. Não tinha idéia que as pernas femininas poderiam ser mostradas no século XIX, fora dos espetáculos vaudeville.